Dor e alívio no reencontro com familiares

Jane Cruz reencontra a sobrinha Milena no interior da ambulância de resgate do Samu - Foto: Margarida Neide l Ag. A TARDEUma consulta médica do seu caçula fez Ana Paula Monteiro, de 27 anos, sair mais cedo de casa nesta quinta-feira, 24, Moradora de Mar Grande, em Vera Cruz, a dona de casa queria pegar a lancha das 5h30, que costuma sair mais vazia para Salvador. Não deu. Ana Paula se atrasou e tomou a embarcação das 6h30.
Cerca de dez minutos após zarpar, o barco no qual ela viaja com Davi Gabriel Menezes no colo começou a jogar. No vaivém, uma idosa tombou e atingiu o bebê de seis meses. Com o impacto, Davi e a mulher caíram na Baía de Todos-os-Santos.
Assistência social
Vítimas do naufrágio terão acolhimento psicológico oferecido pela prefeitura
Em seguida, a dona de casa, a mãe e a filha Milena Evellyn Santana, 4, também submergiram.
O relato acerca da tragédia em alto-mar é narrado pelo tio de Ana Paula, o instrutor de música Juarez da Cruz Santana, 36.
Em meio ao corre-corre em busca de sobreviventes, Juarez conta que os adultos acabaram separados das crianças.
Enquanto os irmãos foram trazidos para a capital, Ana Paula e a tia foram levadas para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Mar Grande, onde foram liberadas pouco tempo depois.
Ao chegarem no Terminal Marítimo do Comércio, Davi e Milena foram atendidos por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O menino, porém, não resistiu.
Segundo familiares, Davi será enterrado, nesta sexta, 25, no Cemitério do Santíssimo, em Vera Cruz. Até a noite desta quinta, o horário ainda não havia sido definido.
Medo do mar
Embora lamentando a perda de pessoas da sua comunidade devido ao naufrágio, quem conseguiu sobreviver ficou com a sensação indescritível de alívio, receio de voltar ao mar para a travessia e lembranças marcantes dos momentos em que esteve debaixo da água, lutando pela vida.
Localizados em diferentes pontos de Mar Grande, em Vera Cruz, o funcionário público Eduardo Aguadê, 64 anos, o ajudante de pedreiro Leandro dos Anjos Marcelino, 26, a diarista Morenita Pereira de Santana, 35, e o universitário Felipe Dantas, 22, resumiram toda a agonia vivida durante o afogamento: "nasci de novo", disseram.
Penúltimo a entrar na embarcação, Felipe relatou ter escolhido a parte de baixo para ir dormindo até Salvador. Esta é sua prática há dois anos, já que acorda muito cedo para pegar a primeira aula na faculdade Área 1, na Paralela.
Mas antes do primeiro cochilo, foi surpreendido pelas imagens do céu e mar passando rapidamente pelo seu campo de visão.
Enquanto o barco enchia rapidamente de água, procurou escapar, em pânico. "Vi um cara chutando o vidro da janela e quando ele passou, fui atrás. Infelizmente, não pude salvar ninguém e não sei se a última menina que entrou na lancha comigo se salvou", disse Felipe, que chegou no momento em que o portão de embarque se fechava e pediu ao funcionário para deixá-lo entrar.
De volta para casa, beijou várias vezes a filha Lua, de seis meses, agradecendo a Deus por estar vivo. Alegria compartilhada pelos pais, os comerciantes Ana Dantas e Ronivaldo Felipe. “Vamos ajudar a alugar uma casa para ele em Salvador, para evitar essa travessia”, contou a mãe do universitário.
“Eu sempre vou embaixo porque lá é melhor para deitar. Agora, só vou viajar em cima e ficar bem acordado”, afirmou Felipe. Filho da diarista Morenita, o pequeno Gilvan, de 6 anos, sugeriu uma forma de proteger a mãe, depois do susto ao pensar que ela tinha morrido.
“De ferry eu deixo ela ir de novo, de lancha mais não”, avisou o garoto, sem largar a mãe um instante. Morenita vem a Salvador toda quinta-feira, fazer faxina em uma residência no bairro de Pernambués.
A prefeitura do município de Vera Cruz, na ilha, diz que o acolhimento das famílias vítimas da tragédia será feito com acompanhamento de psicólogo e profissionais de saúde, com apoio dos municípios vizinhos.