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domingo, 3 de março de 2019

Do aperto ao atraso, Ilê Aiyê mantém tradição no Curuzu

Diante da multidão maciça que foi ver o Ilê Aiyê passar no sábado de Carnaval, era possível escutar de tudo. Enquanto um gritava “que calor da porr...”, o outro completava, com humor: “pede pra ligar o ar-condicionado”. Quando uma mulher tentou subir a ladeira do Curuzu, outra anunciou “tá apertado!”. Em seguida, uma terceira completou com uma saída estratégica: “Vou descer, porque a banda vai começar a tocar e todo mundo vai ficar espremido”.

O folião de primeira viagem que não conhece a tradicional saída do Ilê poderia até se assustar ao escutar essas frases antes do desfile do mais belo dos belos, que completa 45 anos. Mas certamente perderia um dos momentos mais aguardados do Carnaval de Salvador. Antes do cortejo que seguiu até o Plano Inclinado da Liberdade e mais tarde foi para o Campo Grande, o ritual começou no terreiro Ilê Axé Jitolu com o tradicional banho de pipoca, de milho branco e a soltura das pombas brancas da paz.

Quem estava no meio da muvuca e olhava para cima, se deparava não só com os pássaros brancos voando pelo céu, mas também com os tambores estendidos no alto, pelos músicos da Band'Aiyê. A cada passo, um turbante exuberante anunciava as várias deusas do Ilê que estavam na multidão, ou seja, as foliãs que usavam as fantasias do bloco que trazia uma referência à Deusa do Ébano.


“Ser uma Deusa do Ébano é representatividade. Estar aqui hoje, nesse posto, é um momento único. Espero, de coração, fazer valer meu título. Quero incentivar mulheres como eu a nunca desistirem dos seus sonhos, dos seus objetivos”, desejou a nova Deusa do Ilê, a secretária e empreendedora Daniele Nobre, 30 anos, que conquistou o título depois de oito tentativas.

Tradição
Foi no clima de reverência dos moradores, de turistas, políticos e atores que o Ilê Aiyê desfilou sua história de valorização da negritude. “Isso aqui é um acontecimento, um momento único no Carnaval”, destacou o ator João Miguel, 49 anos, que acompanha a saída do Ilê há pelo menos 30 anos. “O mais incrível é que é um ritual da comunidade que chama o mundo todo para cá. É uma festa de bairro única, com resistência e abertura para a história do Brasil”, elogiou.

Outro rosto conhecido na festa era o de Jorge Washington, 52, ator do Bando de Teatro Olodum. Fã do Ilê e uma das figuras sempre presentes na saída do bloco afro, Jorge disse que segue mantendo a tradição porque “ser Ilê Aiyê é manter e afirmar nossa causa e resistência”.

“Vivemos em um Brasil excludente e espaços como esse são essenciais. Quando você vê uma ladeira dessa, ‘pocada’ de gente de todas as cores, é maravilhoso!”, elogiou.

A tradição de sair no Ilê tem duas etapas, para muitos foliões. O Curuzu é só o início e sair da Liberdade em direção ao Campo Grande faz parte do processo. Uns até preferem ir direto para o Curuzu, outros só para o Campo Grande, mas há quem cumpra as duas fases da folia, mesmo que isso signifique atravessar a cidade de carro ou van e esperar horas de atraso no Circuito Osmar.

“Eu gosto muito do bloco, é uma referência do povo negro, de empoderamento da mulher negra, do homem também”, elogiou a filósofa e policial militar Zorilda Ribeiro, 64, enquanto aguardava o Ilê no Campo Grande. Mas já eram quase duas horas da manhã quando Zorilda disse que não sabia se estaria ali no ano que vem. “Eles deviam rever isso, porque demora demais e acaba sendo uma falta de respeito com o folião”, defendeu.

Mais adiante, um casal vindo direto do Curuzu também aguardava o desfile no Campo Grande. “Temos 35 anos de Ilê e todo ano a gente faz isso”, contou orgulhoso o motorista aposentado Pedro Santos, 58, ao lado da mulher, a policial civil Rita Lima, 52. “O Ilê é nossa raiz, a origem da nossa cor. Desde 1974 é a resistência contra o racismo que, infelizmente, ainda existe no Brasil”, justificou Pedro. “O bloco pode desfilar dez da manhã que a gente espera. Por quê? Ah, o atraso no sábado já faz parte da tradição”, completou sorridente.

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